Entrevista com Erica Paes… O retorno da águia

Publicado: 7 de agosto de 2015 em Uncategorized

Entrevista com Erica Paes, por Cleber Abajur:

ERICA CAPA01

Erica, gostaria de transformar esta entrevista em algo próximo da informalidade, como num bate papo de varanda. Construiremos uma narrativa, abordando sobre cada ponto importante de sua vida, da atleta e do ser humano: mãe, mulher e trabalhadora. Deste modo, gostaria de iniciar o nosso “dedo de prosa”:

–  Diz pra gente, o seu contato com a luta vem de sua infância, qual foi o seu primeiro esporte?

Erica  Paes:

–  A minha relação com a luta vem desde criança. Meu pai treinava Caratê com o pai do Lyoto, Yoshito Machida, junto de meus irmãos mais velhos.

– Você conhece a família do Lyoto Machida há muito tempo?

– Sim. Ele é meu amigo de infância.

– Iniciei no esporte aos 6 meses de idade: natação, no clube do Remo – Belém/PA. Com o passar dos anos, por conta da altura, passei a figurar na pré-equipe do Remo de natação. Como era “caneluda”, acabei parando no vôlei de quadra.  A minha vontade sempre foi  lutar Caratê, mas meu pai (machista) não permitia. Ele determinava que (nós somos duas mulheres e dois homens) os homens fariam caratê e as meninas ballet. Até o dia que conheci o meu primeiro treinador, ele morava no mesmo prédio (Belém do Pará) e era vizinho da minha mãe, Ricardo Holanda. Ele sempre me via chegar toda equipada de voleibol: joelheira, cotoveleira, “montadona”.  Quando batia o olho em mim, dizia:

“Para com isso, você tem de treinar Jiu Jitsu”!

–  Eu nem sabia pronunciar o nome direito, pois tinha apenas doze anos. Daí em diante, comecei a treinar e me apaixonar por Jiu Jitsu. Tratei de arrumar logo um quimono (velho mesmo) e passei a freqüentar os treinos, escondida do meu pai. E assim foi… Até os dias de hoje, 20 anos se passaram.

Cleber Abajur – Quais foram as artes marciais que praticou durante a vida?

Erica  Paes:

– Bem… Caratê não cheguei a fazer. Treinei  Jiu Jitsu (Bicampeã mundial), Judô (Vice Campeã Norte/ Nordeste, Bicampeã paraense), Muay Thai, Aikido, Kickboxing, Wrestling e Boxe.

Cleber Abajur –  O MMA está presente na sua vida desde cedo?

Erica Paes:

– Sim e não.  Sou do tempo do vale tudo, conheço o Lyoto dessa época, deste intercâmbio de artes marciais. Posso afirmar que o intercâmbio de artes marciais me acompanha de muito tempo.

Cleber Abajur – Conheceu o Lyoto, por conta da amizade de sua família com a dele?

– Não, conheço o Lyoto através do Jiu Jitsu. E o conheci criança, pois o meu pai era aluno do pai dele. Mas a amizade mesmo veio através do Jiu Jitsu.

Cleber Abajur – Quais os seus  principais títulos de Jiu Jitsu?

Erica Paes –  Como faixa preta, fui  Bicampeã mundial, Pentacampeã brasileira e Campeã Pan-americana.

Pergunto:

– Chegou a lutar no exterior?

Erica Paes – Sim, o campeonato Pan-americano foi em Orlando – Florida/ EUA. Mas, também lutei na Europa.

Cleber Abajur – Sabemos que Josuel Distak, reconhecidamente um dos maiores treinadores de MMA do mundo, tem uma participação importante na sua vida como atleta. Conte-nos um pouco sobre a história de vocês?

Erica Paes – Ele me conhece das antigas. Somos do tempo do “Parazinho” (que era do Boxe e treinava Judô), Wilson “Boi” (grande mestre), Rei Zulu –  com quem tive o prazer e a honra de treinar e ver atuando nos primórdios do Vale Tudo, quando nem se ouvia falar em MMA.  Era menina, tinha de 13 para 14 anos. O Distak sempre esteve envolvido com o Vale Tudo. Além disso, dentro de nosso Estado (ele também é paraense), o governo apoiava o esporte amador no geral, assim como o Jiu Jitsu e o Boxe. Então, sempre quando tinham os eventos,  atletas e treinadores estavam presentes. Nós nos conhecemos daí. Mais para frente, por volta dos meus 16 anos, conheci o pai do meu filho, ele era da seleção paraense de Boxe. Quando treinava, sempre o acompanhava. Por coincidência, Distak também fazia parte da mesma equipe. Por isso, nós sempre nos esbarrávamos. Por vezes, treinávamos juntos. Até que acabei levando jeito para a coisa. Alguns anos mais tarde, aos 21 anos, fiz a minha primeira luta. Nem sabia que ia lutar, foi o Distak que resolveu me  inscrever de supetão:

– “te coloquei num evento aqui em Macapá, quando é que você vem para cá”?

Erica:

– “Olha, acabei de lutar agora, vou descansar”.

Distak:

– “Não, não descansa, vai te embora! Está aqui a passagem”- Ai fui… chegando lá, estava a minha foto num outdoor gigantesco. Daí lutei, foi bacana. Fiz a luta à la Gracie, de quimono e sem luva. Ainda era uma carnificina naquela época, mas graças a Deus deu tudo certo, coloquei para baixo e finalizei, num mata leão invertido, a lutadora Carmem Casca Grossa.

Cleber Abajur – E a amizade fora dos treinamentos?  Pois, nota-se uma admiração e um respeito muito grande entre você e o mestre Josuel Distak.

Erica esclareceu:

– As dificuldades que a vida nos trouxe, nesta longa estrada, fizeram com que nos aproximássemos –  Carregada de nostalgia, ela relembra toda a sua trajetória no MMA com mestre Distak:

–  Quando o Distak foi para São Paulo em 2004, a convite do Vitor Belfort, para a Belfort Team – no Morumbi, ele me levou junto, pois o Vitor comentou que queria uma mulher em sua equipe.  Naquele momento, ele passou a ser meu treinador de MMA. Infelizmente, não durou muito, porque o Vitor teve alguns problemas pessoais (o falecimento da irmã) que determinaram a extinção do time. Distak continuou em São Paulo e parti para o Rio, pois teria mais opções de buscar um lugar para treinar, enquanto ele se estruturava. Chegando no Rio, fui a academia do mestre Osvaldo Alves, quem me formou faixa preta (hoje treino com o mestre Sylvio Behring, sou Behring Jiu Jitsu).  No entanto, havia um grande problema: a sua academia não tinha treino de MMA. Sendo assim, ele indicou a academia do mestre Artur Mariano, que foi seu aluno, e de quem cultiva grande amizade. O mestre Artur Mariano recebeu-me de braços abertos. Treinei em sua academia por um tempo,  mas tinha um outro porém…

– Sério, qual era? Erica complementou:

– O Muay Thai não era a minha arte. Treinava bem, mas não me sentia  a vontade. Embora tenha aprendido muito da parte em pé com ele. Para mim, o mestre Artur é um dos maiores treinadores de Muay Thai do Brasil. Assim, diante de toda essa dificuldade de adaptação, lembrei-me de um outro colega de treinamento, que respeito como um  mestre: José Mário Sperry. Ele era o nosso companheiro de treino na academia do mestre Osvaldo Alves. Tinha lido, há um tempinho, uma matéria que ele, Bebel Duarte e o mestre Murilo Bustamante estavam liderando a Brazilian Top Team. Diante disso, resolvi sair na cara e na coragem para bater a porta da BTT. Quando cheguei à academia, Bebeo Duarte recebeu-me à sua moda:

– “aqui nós não treinamos mulheres, mas para você não perder a sua viagem, pode dar um treino hoje”.

Pensei: – “já que estou aqui, vou dar um treininho mesmo” – No outro dia tornei a voltar a BTT. Caso me mandassem embora, iria sem problemas. Assim que cheguei, Bebeo logo colocou os olhos em mim, senti que o tinha deixado aborrecido, mas fingi que nem era comigo. Mas para a minha sorte o Zé chega de viagem e quando acaba de por os pés na academia, vou até ele e digo:

– “Zé, lembra de mim”?

Continua…

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